Daquilo que inexiste mas existe vertiginosamente

O tempo passou, gritou a menina. O tempo passou como lápide que apodrece, como tempestade que se cessa, o tempo passou e não adianta fingir que não aconteceu. O tempo passou, rugindo, engolindo todas as possibilidades de sonhos planejados, ruindo, esmorecendo tudo aquilo que pretendia-se construir, sorrateiramente. O tempo uivou, uivou forte, estremeceu, se fez visto e falado, o tempo não perdoou. Gritou novamente, o tempo não perdoou.


O tempo não polpou, não se permitiu, o tempo passou. Das brincadeiras sinceras, das mágoas latentes, das raivas implícitas, das mais variadas surpresas desagradáveis, do vazio dos acontecimentos desesperadamente esperados, o tempo se encarregou de tomar providência, de se tornar altivamente capaz de deles se responsabilizar. O tempo passou, menina. O tempo passou e não avisou que passaria, ele simplesmente foi, divergente, convergente, apenas foi.

E foi em um indo crescente, desconexo, impiedoso. O tempo foi por se assim dizer, o tempo foi para não se dizer, o tempo foi para se calar, o tempo foi para se contemplar. O tempo foi, e com ele foram os sonhos perdidos de uma noite fria de desejos, de falsos impulsos, de inconsequências irremediáveis. O tempo passou, gritou a menina. Somos incapazes agora, estamos fatigados, negados e exaustos. O tempo não só deu conta de mim, como deu conta daquilo que dentro de mim desconhecia. O tempo não se proibiu, o tempo rugiu.

Não posso acreditar, o marasmo do tempo corrido já é o próprio tempo olhando para trás, em sua profunda expectativa inútil de voltar, de reconstruir e de permitir um novo começo. O tempo passou, meu querido tempo. O tempo passou pra você também, tempo desgovernado, inflexível. O tempo não parou nem para você, o próprio tempo dentro da própria incapacidade de ser tempo. O tempo passou menina, o tempo passou.

Estúpido Desabafo

Porque quanto mais você faz,
mais eu quero.
Porque quanto mais você pede,
mais eu dou.
Porque quanto mais você é,
menos eu sou.
Sufoco. Desapareço.
Esmoreço. Sobrevivo.
Quanto mais você quer,
mais me esforço pra ter.
Eu admito,
te amar é enganoso,
é vicioso, suavemente vicioso.
Porque quanto mais você finge,
mais eu a torno verdade.
Encantamento que me lembra
Chopin e suas opressões,
opressões aplaudidas de pé,
por sonatas melancólicas,
doentias, viris e pecaminosas.
Entregue-me meu Marlboro,
Dê-me minha vivacidade,
Entregue-se.
Tudo é - tão - erótico
pseudo romântico
metáfora física de puro sexo
flertes no Beirute
festas em Brasília
Tudo tão falso, tão absurdo.
Volátil, Atroz.
Desista, porque não vou abrir mão.
Me esqueça, esqueça suas ideologias.
prepotência é veneno que ilude,
aquariano violento,
Desista. Urgentemente.
Eu não quero mais sua amizade.
Talvez nunca a quis, para ser sincero.
Não vou me esquivar de suas carícias.
Vou me embebedar delas.
Nem que para isso,
eu me suje, me torne hipócrita.
Permanecerei estático,
iludido, lubridiado.
Pouco me importa.
Vou me sustentar sob cacos de vidro
e seguirei em frente.
Por isso, desista.
Por aquilo, também desista.
Não vou me pronunciar.
Leia meus silêncios.
Comprometa-se com eles.
Responsabilize-se por eles.
Que tudo exploda,
incendeie. Não quero mais nada de pé;
quero descontrole.
Quero o amargo de suas dúvidas.
Quero que desistas, meu amor.
Porque quanto mais você me ama,
mais eu te amo de volta.







Tecnologia do Blogger.